O Tédio de um Gênio

1017134_10151725413696276_1669761733_n

O olhar vazio em direção ao árbitro Herb Dean nesta imagem, que retrata um Anderson Silva “desligado”, no chão, alheio aos consecutivos golpes do desafiante Chris Weidman, confirma o improvável até então: a derrota de um dos maiores ícones da história do Ultimate Fighting Championship.

Muito se falou desde o fatídico final do UFC 162 (sábado do dia 06/07/13), e até uma revanche já foi marcada (UFC 168, em Novembro), mas em meio a tantas especulações, meias entrevistas, opiniões de técnicos e outros profissionais da área, uma me chamou a atenção: um texto publicado no excelente site Fightland (um dos braços da revista de internet Vice). Por questões de rotina corrida este texto demorou um pouco mais que o previsto para ser traduzido e publicado aqui. Ainda assim, creio que vale a pena perder uns minutos nele.

O artigo, em tradução livre, você confere abaixo.

O Tédio do Gênio

por Josh Rosenblatt

Por cinco anos tenho sido fã de MMA, e por cinco anos pude contar com o fato de Anderson Silva ser o campeão da mesma maneira que sempre contei com o fato da Terra girar em torno do Sol. Anderson Silva, para mim, sempre foi uma verdade imutável.

Neste último sábado (06/07), a indestructibilidade de Anderson foi para o ralo da mesma maneira que todas estas verdades imutáveis. Eventualmente o tempo pega todos esses mitos e os desmascara, mostrando exatamente o que eles são: esperanças, desilusões, tentativas desesperadas de ter alguma importância em um mundo sem tanta importância assim.

Minha reação à derrota de Silva foi muito mais emocional do que poderia imaginar, porque da mesma maneira que uma pequena criança tem que lidar com a improvável morte de um avô, eu cresci acreditando que a imutabilidade de campeão era algo em que poderia acreditar para sempre. É muito estranho acordar e se dar conta que essa realidade – tão crível até a noite anterior – não existe mais.

Ainda assim, sou um cara sensato, e fico confortável com a idéia de que o chão sob nossos pés nem sempre é firme. Mas os eventos de Sábado foram tão estranhos, tão improváveis, e tão cheio de perguntas sem resposta que tudo pareceu uma viagem. Chris Weidman é o novo campeão dos meio-pesados – isso nós sabemos – mas o resultado pareceu uma “meia vitória”. Weidman pegou Silva fazendo palhaçada, de guarda baixa, queixo à mostra, dançando, fingindo estar com as pernas bambas e com medo, e ninguém – nem Weidman, seu treinadores, seu pessoal de suporte – pode acreditar que ele derrotou a melhor versão de Anderson Silva.

Ao invés disso, ele definitivamente derrotou a pior de suas versões: a metida, cruel, exibicionista e indiferente, que nem mesmo os fãs mais ardorosos de Silva costumam aceitar. A falta de uma resolução decente para este combate me deixou insatisfeito até o fim daquela noite, e não duvido que Chris Weidman tenha se sentido da mesma maneira. Ele sabe que, no fundo, independente do tempo que ele carregue o cinturão, sempre haverá uma voz em sua consciência, martelando: Você não derrotou o melhor do mundo; ele perdeu para si mesmo.

A pergunta, claro, é porque? Porque Anderson perdeu para si mesmo? Talvez ele tenha perdido a paixão por lutar, alguns teorizaram. Será que ele já estava cheio das expectativas e responsabilidades que vem agregadas ao prestígio de ser campeão – expectativas e responsabilidades que ele carregou por sete anos? Ou ele subestimou o potencial de Weidman, de fato? Ele falhou em ter consciência de que todo homem – até mesmo ele – pode ser pego com um golpe bem encaixado quando as estrelas, o destino, e o plano de luta dos adversários se alinham? Será que ele foi vítima de seu próprio hype?

Na sexta [véspera do evento] eu escrevi que Anderson Silva é um gênio – e talvez o único gênio que o MMA já produziu – e que gênios sempre deveriam ser testemunhados por aqueles que foram sortudos de viver em sua era. Mas o que eu não disse – e que sequer estava pensando no momento – é que existe uma desvantagem nos gênios que deveria nos motivar a testemunhar seus grandes feitos sempre que for possível: eles cansam de si mesmos. Michael Jordan largou o basquete apenas para largar o tédio de ser um gênio deste esporte, e desconfio que o mesmo tenha acontecido com Silva. Não que ele tenha ficado convencido de maneira similar (apesar de que talvez até tenha um pouco disso), mas talvez esteja de saco cheio de ser brilhante. Por sete anos ele existiu em um plano completamente diferente de qualquer um com quem esteve em contato – mais rápido, mais forte, mais inteligente, mais técnico – e após um certo ponto até os gênios preferem abrir mão para viver no mesmo patamar que todo o resto.

Silva parecia sem inspiração, uma ameaça pertinente a qualquer grande artista, especialmente aquele cuja inspiração beira as fronteiras do espiritual.

Na noite do último Sábado, acho que Anderson Silva chegou a um estado de compreensão mais profundo, sutil, e definitivamente menos colorido do universo e quis nos passar o mesmo: não existem respostas conclusivas ou qualquer coisa parecida neste mundo. Os mitos em que acreditamos (e dependemos, as vezes) são apenas e tão somente mitos, fábulas. Talvez ele tenha procurado – ainda que indiretamente – expor a mentira que ele ajudou a construir: que algumas coisas são perfeitas, ideais, e intocáveis. Talvez ele quisesse que testemunhássemos que somente tolos procuram por certezas na mais utópica das realidades.

Como leitura complementar sobre o assunto, recomendo este artigo da revista TATAME.

Anúncios

Deixe aqui seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s